Muitas vezes pensamos em escrever para vocês. Pensamos nas palavras, na melhor maneira de agradecer, em como traduzir aquilo que vivemos no dia 30 de julho. E somente hoje consigo fazê-lo. Talvez porque algumas experiências precisem de um tempo para encontrar palavras — e, ainda assim, sei que nenhuma delas será capaz de traduzir exatamente o que eu, Joana e, certamente, nossas e nossos estudantes indígenas sentimos naquele dia.
Por isso, antes de qualquer coisa, fica a nossa mais profunda gratidão. Obrigada por nos acolherem com tanto carinho, generosidade e inteireza. Obrigada por abrirem as portas da Vila Esperança e, mais do que isso, por nos permitirem entrar em um território onde a educação ganha outros sentidos, outras cores, outros tempos e outras possibilidades de existência. Nossa gratidão transborda!!!
Desde a nossa roda de conversa na Sala Passaredo, passando por cada espaço da Odé Kayodê, cada encontro, cada palavra, cada gesto e cada troca foram, para nós, muito mais do que uma visita ou uma atividade acadêmica. Foram experiências que plantaram sementes de reconhecimento, de fortalecimento identitário, de pertencimento e de diálogo entre saberes.
Ali, aprendemos — não apenas ouvindo, mas vivendo — que uma outra escola é possível!! Uma escola pluricultural, que não apaga as diferenças para produzir uma falsa igualdade; que reconhece os territórios, as memórias, as ancestralidades e os modos diversos de produzir conhecimento. Uma escola que não se coloca acima dos saberes da vida, mas se dispõe a aprender com eles.
Uma escola decolonial não porque assim se nomeia, mas porque constrói, no cotidiano, outras formas de ensinar, aprender, conviver e existir.
Vocês nos ensinaram (ensinam), na prática, que educar é também cuidar. É escutar. É reconhecer. É criar vínculos. É caminhar junto. É compreender que nenhum conhecimento se produz sozinho e que nenhum sujeito chega à escola vazio de saberes, histórias e experiências.
Como disse a querida Profa. Joana Dark Leite, com quem tive a honra e a alegria de mediar aquele encontro: “a educação acontece quando os mundos se encontram”. E que encontro foi aquele!
No dia 30 de julho, nossos mundos se encontraram. Encontraram-se universidade e território, escola e comunidade, diferentes histórias, diferentes saberes, diferentes experiências. Encontraram-se, sobretudo, pessoas dispostas a ouvir e a aprender umas com as outras.
E nossos estudantes indígenas puderam se reconhecer naquele espaço de uma maneira muito especial. Puderam perceber que seus saberes, suas culturas, suas histórias e suas identidades não são algo que precisa ser deixado do lado de fora dos espaços educativos. Ao contrário: são parte fundamental daquilo que a educação precisa reconhecer, acolher e fortalecer.
Talvez seja justamente aí que esteja a força da Odé Kayodê: em fazer da educação um lugar de encontro, mas também de afirmação; um lugar de aprendizagem, mas também de resistência; um lugar de infância, de cultura, de arte, de ancestralidade e de futuro.
Porque educar, sabemos, nunca é um ato neutro!! Escolher acolher a diversidade é uma posição política. Reconhecer outras epistemologias é uma posição política. Fazer da escola um território onde diferentes modos de ser e de conhecer possam existir com dignidade é uma posição política.
E a Odé Kayodê faz isso com beleza, com coragem e com vida.
Por isso, nossa passagem pela Vila Esperança não terminou quando fomos embora. Ela continua em nós. Continua nas conversas que ainda fazemos, nas perguntas que ficaram, nas reflexões que aquele encontro provocou e, sobretudo, nas sementes que vocês plantaram em cada uma e cada um de nós.
Obrigada por serem território de resistência, de criação, de memória, de ancestralidade e de esperança.
Obrigada por nos lembrarem que a educação pode ser outra coisa quando se abre ao encontro, à diferença e à vida.
Que alegria ter vivido esse encontro com vocês!!!
Com carinho, admiração, respeito e uma imensa gratidão,
Denise e Joana
Profa. Dra. Denise de Oliveira Alves – Docente nos Cursos de Licenciatura em Educação do Campo e Pedagogia, Líder no Grupo de Pesquisa Educação no Cerrado e Cidadania (GPECC), Docente no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu – CEPAE/UFG , Coordenadora do Núcleo de Acessibilidade.

